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A diferença psicológica entre quem planeia tudo e quem deixa espaço para a incerteza

Pessoa a escrever num caderno com post-its, ao lado de uma planta, café e fotos, numa mesa de madeira.

L’una puxa de uma folha do Google Sheets, de uma to-do list colorida e de um horário cronometrado ao minuto. O outro encolhe os ombros, diz “logo se vê” e deixa-se guiar pelo metro, pelo sol e pelo humor. No escritório, nos casais, nos grupos de amigos, este choque silencioso entre “planear tudo” e “deixar acontecer” cria, por vezes, tensões que não ousamos nomear.

Numa terça-feira de manhã, num café que abre com um bocadinho de atraso, observo a cena. À esquerda, uma mulher assinala meticulosamente a lista num bullet journal. À direita, um homem olha pela janela; o café arrefece; o telemóvel, sem calendário aberto. Ela transpira controlo, ele, uma deriva escolhida. Vivem no mesmo mundo, mas não na mesma temporalidade.

Entre estas duas formas de viver, não há apenas uma questão de organização. Há uma diferença psicológica real, quase uma relação íntima com o controlo, o medo e o desejo. Este fosso discreto explica muito mais do que pensamos. E, por vezes, explica porque é que duas pessoas que se amam não conseguem alinhar nem num simples sábado à tarde.

A psicologia escondida dos que planeiam vs. as pessoas do “logo se vê”

As pessoas que planeiam tudo não estão apenas a gerir tempo - estão a gerir ansiedade. Por detrás das folhas de Excel, das listas e dos lembretes, há muitas vezes uma ideia simples: se eu prever, vou sofrer menos. O cérebro gosta do que é previsível; relaxa quando está tudo arrumado em caixinhas. Não é só produtividade: é uma forma de autoproteção.

Do outro lado, quem deixa espaço para a incerteza não é necessariamente “desorganizado”. Muitas vezes, está em negociação constante com algo invisível: o medo de sufocar, de ficar preso num calendário que parece uma gaiola. Para estas pessoas, planear demasiado cedo é renunciar a possibilidades que ainda nem existem. O desconhecido não é ameaça - é espaço de jogo.

Entre estes dois polos, a maioria de nós oscila. Há quem planeie o trabalho quase de forma militar e depois deixe os fins de semana acontecerem como um filme improvisado. Outros fazem o contrário. Falamos pouco desta mistura, quando ela diz tanto sobre a forma como esperamos, tememos e contamos a nós próprios o futuro.

Um estudo conduzido por psicólogos sobre a “tolerância à incerteza” mostra um pormenor marcante: as pessoas que planeiam tudo relatam mais frequentemente pensamentos intrusivos quando algo muda em cima da hora. Um jantar cancelado, um comboio atrasado, um colega que altera uma reunião: o cérebro entra em alerta máximo. Não é apenas irritação - é quase um pequeno terramoto interior.

Pelo contrário, quem aceita melhor a incerteza sente este choque com menos frequência. A sua linha de base é diferente. Considera que a realidade é fundamentalmente móvel, por isso cada imprevisto encaixa nessa lógica. Imagine um casal em viagem: ela imprimiu o itinerário; ele nem sabe bem em que zona fica o hotel. Quando o comboio é suprimido, ela entra em pânico; ele sorri e pega no telemóvel à procura de um plano B.

Podíamos achar que os “planeadores extremos” são sempre mais eficazes no trabalho ou nos estudos. Os dados são mais matizados. Sim, atingem mais vezes objetivos de curto prazo. Mas quem tolera melhor a incerteza é, muitas vezes, mais criativo e mais capaz de recuperar quando os planos desabam. Uma não é uma superpotência sem custo; a outra não é uma fraqueza romântica. Ambas têm pontos cegos - sobretudo quando se tornam rígidas.

Por detrás do desejo de prever tudo está, muitas vezes, o que os psicólogos chamam “necessidade de controlo”. Essa necessidade não é má em si. Ajuda a levantar de manhã, a estruturar semanas, a levar projetos para a frente. Onde começa a falhar é quando tudo o que escapa ao plano é vivido como uma ameaça pessoal. O tempo que muda, o e-mail que chega tarde, a criança doente: cada variável vira inimiga do guião perfeito.

No outro extremo do espectro, valorizar o imprevisto pode esconder outro medo: o de se comprometer. Não fixar nada, não prever nada, evita por vezes outra dor - a de encarar o que se quer mesmo. Quando nunca se marca uma data, um projeto, uma decisão, fica-se num nevoeiro confortável. Dá sempre para dizer que se teria feito “uma coisa genial” se as circunstâncias tivessem sido diferentes.

Muitos investigadores falam do locus of control: algumas pessoas sentem-se responsáveis pelo que lhes acontece; outras acham que tudo depende sobretudo da sorte ou dos outros. Os grandes planeadores tendem a ter um locus interno muito forte: se organizarem, acreditam que conseguem influenciar o resultado. Quem deixa espaço à incerteza aposta mais no encontro entre as suas intenções e o que o mundo trouxer. Duas filosofias discretas, que se veem na forma de preencher - ou não - uma agenda.

Como evitar que o planeamento engula a tua vida

Um método simples para perceber onde te situas: pega numa semana normal e desenha-a como uma linha. Depois pinta a azul tudo o que foi programado com antecedência e a vermelho tudo o que foi pura improvisação. Observa o desenho. Se estiver tudo azul, o teu cérebro vive provavelmente num falso sentimento de controlo. Se estiver tudo vermelho, talvez vivas uma fadiga escondida ligada ao caos.

Primeira dica prática: criar “zonas tampão” no dia. Blocos propositadamente vazios, protegidos, sem objetivo específico. Podem ser escritos no calendário como qualquer compromisso, mas sem lhes dar conteúdo. São bolhas de incerteza aceita. Ali, o imprevisto pode existir sem ameaçar o resto.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Voltamos depressa aos hábitos. A mudança real começa em pequeno. Uma manhã por semana sem reuniões. Uma noite por mês sem planos. Um trajeto sem podcast nem e-mails, só para ver o que aparece quando nada está a ser “otimizado”.

Nos planeadores, os erros repetem-se muitas vezes: - querer antecipar tudo ao pormenor; - confundir planeamento com valor pessoal: “se o meu plano falha, eu falho”; - apegar-se a cenários específicos em vez de se apegar a uma direção.

Quando estas três coisas se misturam, a agenda torna-se uma espécie de juiz interior silencioso.

Para quem vive mais ao dia, outros riscos também se repetem: - adiar sistematicamente para “mais tarde” tudo o que exige um compromisso concreto; - apoiar-se na ideia de que “trabalha melhor sob pressão”, quando nem sempre é verdade; - cair num ritmo em que tudo é urgente, logo nada é realmente escolhido.

Um gesto mais suave do que produtivo é negociar contigo próprio. Em vez de “a partir de amanhã, vou planear tudo”, diz: “esta semana escolho só um momento para enquadrar e um momento para deixar totalmente aberto”. Este micro-contrato tira a culpa. Transforma a organização em experimentação, não em julgamento.

“A verdadeira liberdade não é viver sem constrangimentos; é saber quais escolhemos e quais deixamos ao mundo.”

O que muita gente descobre ao observar-se é que o seu estilo de relação com o tempo não é fixo. Muitas vezes foi aprendido: um pai/mãe muito ansioso, um trabalho em que tudo pode virar do avesso por causa de um e-mail, uma infância caótica que empurrou para controlar tudo - ou, pelo contrário, para deixar de planear. Perceber esta origem não muda o dia a dia de imediato, mas tira uma camada de vergonha.

  • Anotar uma vez por dia: “O que me stressou por não estar previsto?”
  • Identificar uma situação em que o imprevisto jogou a teu favor.
  • Testar um “mini-plano”: uma única coisa fixa, rodeada de espaço livre.
  • Falar com alguém que funciona ao contrário de ti, só para ouvir.

Viver entre estrutura e surpresa

Há uma imagem que aparece muitas vezes em terapia: viver é como caminhar numa ponte suspensa entre duas margens. À esquerda, a rigidez: tudo está previsto, tudo bloqueado, nada pode mexer. À direita, a dissolução: nada é definido, tudo se decide no último minuto - até o que realmente importa. Alguns acampam numa margem, convencidos de que é a única viável. Outros fazem idas e vindas exaustivas.

Essa ponte constrói-se quando aprendemos a tolerar um pouco mais aquilo que nos assusta. Os planeadores aprendem a suportar um espaço em branco na agenda sem o preencher compulsivamente. Quem vive ao dia aprende a dizer que sim a um compromisso concreto sem se sentir preso. Ninguém ganha medalhas por isso. Mas a sensação interior muda: deixamos de sofrer tanto com o nosso próprio estilo.

Para alguns, esta reflexão vira quase um espelho da vida afetiva. A necessidade de planear tudo toca também a forma de gerir conflitos, amor, dinheiro, saúde. As mesmas ansiedades regressam: medo de perder, medo de faltar, medo de errar. Deixar espaço para a incerteza não é aceitar tudo. É aceitar que o real nunca vai obedecer exatamente às nossas folhas de cálculo, nem às nossas fantasias de liberdade total.

O que surpreende, quando começamos a mexer neste “botão”, é a reação dos outros. O colega sempre atrasado que chega a horas porque marcaste claramente. O parceiro ultra-organizado que sorri genuinamente numa noite sem programa, só porque o enquadramento emocional está seguro. O gestor que descobre que um pouco de indefinição permite à equipa inventar soluções que nenhuma reunião teria previsto.

Algumas relações mudam devagar. Os “tu controlas tudo” ou “tu nunca planeias nada” dão lugar a frases mais matizadas: “preciso de saber com alguma antecedência” e “preciso de alguma flexibilidade se isto mudar”. Passa-se de uma guerra de estilos para uma conversa sobre necessidades. E isso já é outra relação com o tempo.

A pergunta que fica em aberto já não é bem: “Quem tem razão - os planeadores ou os improvisadores?”. Aproxima-se mais de: “Até que ponto o meu estilo de vida serve a pessoa em que quero tornar-me?”. Talvez a verdadeira maturidade, num mundo obcecado com produtividade, não seja controlar tudo nem largar tudo. É saber que parte da história escrevemos - e que parte aceitamos descobrir ao virar da página.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Relação com o controlo Os grandes planeadores acalmam a ansiedade através do controlo; os “logo se vê” apostam na adaptação. Reconhecer-se num estilo e compreender reações aos imprevistos.
Tolerância à incerteza Traço psicológico que influencia stress, criatividade e relações. Identificar porque certas mudanças esgotam ou estimulam.
Zonas tampão Inserir propositadamente blocos vazios numa agenda muito preenchida. Testar um equilíbrio concreto entre estrutura e liberdade.

FAQ

  • Porque é que entro em pânico quando os planos mudam em cima da hora? Provavelmente tens baixa tolerância à incerteza e uma elevada necessidade de controlo. O teu cérebro não perdeu apenas um compromisso - perdeu uma referência que o tranquilizava.
  • Planear tudo é sempre mau? Não. Planear pode proteger a tua energia e ajudar-te a atingir objetivos. Torna-se problemático quando qualquer desvio parece um fracasso pessoal ou um ataque.
  • Como posso sentir-me mais confortável com a incerteza? Começa muito pequeno: uma noite sem planos, uma reunião sem uma agenda hiper-detalhada. Observa o desconforto sem o julgar e repete.
  • E se eu e o meu parceiro tivermos estilos de planeamento totalmente diferentes? Falem de necessidades, não de “certo” e “errado”. Planeiem o que é mesmo importante para cada um e deixem, de propósito, algum tempo em comum em aberto.
  • Uma pessoa pode passar de planeadora a mais espontânea? Sim, mas geralmente através de ajustes progressivos. Não se muda a relação com o tempo numa semana; desloca-se com micro-experiências repetidas.

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