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A psicologia diz que quem se justifica frequentemente pode estar à procura de validação emocional.

Mulher a escrever num caderno enquanto bebe café, num ambiente de café com pessoas ao fundo.

A conversa começa de forma bastante inocente. Estás a explicar porque chegaste atrasado, porque não respondeste à mensagem, porque escolheste aquele restaurante, porque a tua voz soou “estranha” ao telefone. Dás por ti a acumular pormenores que ninguém te pediu, a respiração a ficar um pouco mais curta, o coração a dar aquele pequeno salto acelerado. A certa altura reparas que a outra pessoa deixou de reagir. Limita-se a acenar com educação, enquanto tu continuas a construir o teu caso como um advogado num pequeno julgamento invisível.
Depois chegas a casa e repetes toda a cena na cabeça, a perguntar-te porque te sentiste tão culpado se, na verdade, não fizeste nada de errado.
Há aqui algo mais profundo a acontecer.

Quando explicar te transforma num pedido silencioso de segurança

Algumas pessoas explicam porque gostam de clareza. Outras explicam porque, no fundo, têm medo de serem mal interpretadas, rejeitadas ou julgadas. Esse segundo grupo não dá apenas razões. Defende o seu direito a existir exactamente como é, em câmara lenta, todos os dias.
Os psicólogos chamam a este padrão uma forma de “procura de reasseguramento”. À superfície, parece excesso de comunicação. Por baixo, é muitas vezes uma busca por segurança emocional, um pedido silencioso: “Por favor, não fiques zangado. Por favor, não te vás embora. Por favor, não penses que sou uma má pessoa.”

Imagina a Ana, 32 anos, a enviar uma mensagem a uma amiga: “Olá, desculpa não ter respondido mais cedo. Vi a tua mensagem no trabalho mas depois o meu chefe chamou-me, e a seguir tive de acabar um relatório, e o metro estava com atrasos, e a bateria do telemóvel morreu, e…” A amiga responde: “Sem stress,” e segue em frente. A Ana, porém, fica a pensar nisso durante horas.
Soou rude? A amiga achou que ela não se importa? Devia enviar outra mensagem a explicar ainda mais? Esta pequena interacção transforma-se numa maratona mental para a qual ela nunca treinou.

Do ponto de vista psicológico, a auto-justificação constante pode ser um efeito secundário de feridas antigas. Talvez tenhas crescido a ter de justificar cada escolha perante um pai ou uma mãe muito crítico. Talvez o amor sempre tenha parecido um pouco condicional, como se tivesses de o “merecer” sendo “razoável” e “bom”. Por isso, em adulto, o teu cérebro trata qualquer pequeno mal-entendido como uma ameaça potencial.
Não estás apenas a explicar o atraso. Estás a defender o teu valor, a tua bondade, a tua fiabilidade. É uma forma esgotante de viver.

Como quebrar o ciclo sem te tornares frio ou distante

Um exercício simples pode mudar tudo: responde apenas à pergunta que foi realmente feita. Nem mais, nem menos. Se alguém diz: “Consegues vir às 19:00?” tu respondes: “Sim, às 19:00 dá,” ou “Não, só consigo estar aí às 19:30.” Não acrescentas três parágrafos sobre trânsito, reuniões ou o plano de vacinação do cão.
Nas primeiras vezes, vai quase dar comichão nos dedos acrescentar “porque…”. Deixa essa urgência passar. Envia na mesma. Depois repara no que acontece: normalmente, nada de mau.

O que muitas vezes alimenta o hábito de explicar demais é o medo de seres visto como egoísta ou pouco fiável. Então defendes-te preventivamente. Assumes a responsabilidade pelos sentimentos de toda a gente, só para o caso de ser preciso.
A armadilha é que as pessoas habituam-se rapidamente a este nível de explicação. Começam a esperar o teu contexto interminável, enquanto tu ficas cada vez mais drenado. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem pagar um preço em ansiedade e ressentimento. Trata cada momento como uma oportunidade para responder de forma mais simples, mesmo que o teu crítico interior grite.

“Explicar demais é o que acontece quando o teu sistema nervoso não confia que tens permissão para desiludir um pouco as pessoas e, ainda assim, ser amado.”

Experimenta criar pequenas “fronteiras em palavras” que possas reutilizar. Por exemplo:

  • “Hoje não consigo, mas obrigado pelo convite.”
  • “Não vou conseguir responder de imediato.”
  • “Preciso de pensar e depois digo-te.”
  • “Para mim isso não dá, vamos encontrar outra opção.”
  • “Percebo-te, mas agora não tenho energia para explicar mais.”

Estas frases curtas funcionam como rodinhas de treino emocionais. Protegem o teu tempo e a tua energia sem te transformarem num robô.

Aprender a viver sem um júri interno constante

Quando começas a notar este padrão, o mundo fica um pouco diferente. Ouves isso em e-mails cheios de pedidos de desculpa por atrasos normais. Vês isso em áudios longos que começam com “Desculpa, isto ficou enorme, só queria explicar…” Podes senti-lo na tua própria garganta quando alguém levanta uma sobrancelha perante a tua escolha e surge automaticamente a urgência de justificar.
A verdadeira mudança acontece quando percebes que não tens de ganhar todos os julgamentos invisíveis. Algumas pessoas vão interpretar-te mal. Algumas não vão gostar das tuas decisões. Algumas não precisam de todo o contexto que estás desesperado por dar. E a vida continua.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Explicar vs. defender Partilhar contexto é saudável, mas a justificação constante sinaliza insegurança mais profunda Ajuda-te a perceber quando passaste da clareza para a auto-defesa emocional
Validação emocional Explicar demais muitas vezes esconde a necessidade de te sentires aceite, perdoado ou “bom o suficiente” Dá palavras ao que estás realmente a procurar nessas explicações longas
Pequenas mudanças de comportamento Respostas curtas e directas e limites simples reduzem a ansiedade com o tempo Oferece passos concretos para te sentires mais calmo e mais respeitado no dia-a-dia

FAQ:

  • Porque é que me sinto culpado se não me explicar totalmente?
    A culpa vem muitas vezes de regras antigas que internalizaste sobre teres de ser “perfeitamente claro” ou estar sempre a agradar. O teu sistema nervoso interpreta a brevidade como egoísmo, mesmo quando não fizeste nada de errado.
  • Explicar demais é sempre sinal de baixa auto-estima?
    Nem sempre. Às vezes é apenas um hábito de comunicação ou um estilo cultural. Torna-se um problema quando te sentes ansioso, esgotado ou envergonhado se não justificares cada passo.
  • Como posso perceber se estou a procurar validação emocional?
    Repara no que esperas obter depois de uma explicação longa. Se, no fundo, queres ouvir “não estás errado, não és uma má pessoa, não estou zangado”, isso é validação emocional, não apenas partilha de informação.
  • As pessoas não vão achar que sou mal-educado se eu parar de explicar?
    Algumas podem precisar de se ajustar no início, especialmente se estão habituadas a que dês “demais”. A maioria aceita respostas curtas e claras - e até as acha mais fáceis de gerir.
  • Devo falar com um terapeuta sobre isto?
    Se este padrão aparece em todo o lado - no trabalho, no amor, com amigos - e te deixa constantemente em alerta, um terapeuta pode ajudar-te a perceber onde começou e a construir uma forma mais tranquila de te relacionares com os outros.

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