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Especialistas alertam: há uma planta de jardim que nunca deve cultivar, pois atrai cobras e pode transformar o seu quintal num habitat de verão para estes répteis.

Pessoa a cuidar de plantas num carrinho de mão num jardim florido.

A primeira vez que a Emma encontrou uma muda de pele de cobra nas suas hortênsias, achou que era uma partida. Uma espiral esbranquiçada, seca e quase fantasmagórica, encaixada entre a cobertura morta e as flores azuis - tão perfeita que parecia falsa. Depois viu a segunda, junto ao compostor. Uma semana mais tarde, o cão ficou imóvel perto dos degraus das traseiras e começou a ladrar a algo que deslizou, silencioso como uma sombra, por baixo das folhas verdes e densas na borda do relvado.

A planta que ali crescia era viçosa, bonita e… cheia de cobras.

Ela tinha-a plantado porque um vizinho disse que “enche espaço num instante” e que “cheira maravilhosamente à noite”. O que ninguém mencionou foi que podia transformar um quintal sossegado de zona residencial num salão de verão para cobras.

Uma escolha de jardinagem aparentemente inocente. Uma realidade completamente diferente no quintal.

A planta de aspeto inocente que as cobras adoram em segredo

Fale com especialistas em vida selvagem e um nome surpreendente aparece vezes sem conta: coberturas de solo densas, como a hera e o zimbro rasteiro, estão entre as principais culpadas por transformar um jardim num íman para cobras. Há uma planta em particular que é referida repetidamente: hera-inglesa. À distância, é encantadora, quase romântica. Verde-escura, de crescimento rápido, cobre depressa vedações, troncos e recantos sombrios onde não sabe bem o que fazer.

De perto, sobretudo no verão, esse mesmo tapete denso torna-se imobiliário de primeira para cobras à procura de sombra, alimento e segurança. As folhas formam uma camada fresca, húmida e protegida. Por baixo, prosperam insetos, lesmas e pequenos roedores. Para uma cobra, não é apenas abrigo. É um buffet com teto.

Um herpetólogo com quem falei contou-me a história de um pequeno jardim urbano atrás de uma moradia em banda. Os proprietários orgulhavam-se do seu “oásis de baixa manutenção”: um pátio pavimentado, alguns vasos e um grande canto de hera-inglesa já madura a subir por uma parede de tijolo e a espalhar-se pelo solo.

Num julho muito quente, começaram a ver cobras de liga (garter snakes) de poucos em poucos dias, sempre perto do mesmo canto. Ao início, desvalorizaram. Nostalgia de infância no campo. Depois, quando o filho pequeno começou a brincar mais no exterior, os avistamentos passaram de “de vez em quando” para “quase sempre que saímos”.

Quando, por fim, uma equipa de controlo de fauna levantou e cortou a hera, encontrou várias cobras, peles antigas e uma surpreendente rede de túneis de ratos. A hera era, basicamente, um complexo de apartamentos.

Para especialistas em cobras, isto não é chocante. A hera e plantas semelhantes, rasteiras e emaranhadas, oferecem exatamente o que as cobras procuram por instinto: pouca luz, humidade estável e espaços apertados onde predadores maiores não conseguem chegar. As folhas sobrepostas retêm ar fresco, mesmo sob sol intenso. Detritos caídos ficam escondidos e decompõem-se lentamente, atraindo escaravelhos e outros bichos rastejantes.

Quando os roedores se instalam para comer esses insetos e sementes presas na cobertura, as cobras seguem-nos. Não vêm pela planta. Vêm pelo ecossistema que a planta constrói discretamente ao nível do tornozelo. Se no seu jardim há zonas onde já nem consegue ver o solo, é bem provável que algo que rasteja já tenha aquele sítio debaixo de olho.

É esta a frase dura e direta a que os especialistas voltam sempre: a planta é inocente; o abrigo que ela cria não é.

Como manter o jardim bonito sem estender o tapete vermelho às cobras

A boa notícia: não precisa de deixar o jardim “a nu” nem viver em paranoia. A chave é quebrar os “túneis” escuros e densos que a hera e plantas semelhantes criam. Comece por atacar os tapetes mais espessos de cobertura de solo perto da casa, do pátio e das zonas de brincadeira. Corte-os, depois desbaste até conseguir ver manchas de solo e pontos de luz.

Se tem hera-inglesa em vedações ou a subir por troncos, retire-a por etapas. Faça um anel limpo à volta da base, depois vá arrancando secções à medida que secam. Substitua essas áreas por plantações mais abertas e arejadas: gramíneas ornamentais, aromáticas como lavanda ou alecrim, ou flores com caules visíveis em vez de folhagem densa e sobreposta.

Muitos proprietários fazem exatamente o contrário sem se aperceberem. Olham para um canto despido e pensam: “Já sei, tapo isto tudo com uma planta grande, resistente e sem complicações.” Zimbro rasteiro, hera, vinca, pachysandra. Parece eficiente. Esconde as ervas daninhas e o solo irregular. Fica “limpo” visto da porta do pátio.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que só queremos que o quintal pareça apresentável sem passar todos os fins de semana de joelhos a arrancar dentes-de-leão. Só que esse efeito de carpete cria corredores longos e contínuos de esconderijo. As cobras conseguem deslocar-se por metros sem serem vistas. E se já detesta trabalho de jardim, é ainda menos provável que vá levantar e desbastar esse tapete verde em cada estação.

Um especialista em fauna urbana foi direto ao assunto:

“Qualquer planta que forme uma manta apertada e sombria sobre o solo é um potencial íman de cobras. A hera-inglesa é só o exemplo mais conhecido. Quanto mais espessa e escura for, maior a probabilidade de estar a alojar algo que não vê.”

Para tornar tudo mais claro quando anda pelo seu quintal, tenha esta lista curta em mente:

  • Prefira plantas com caules visíveis e circulação de ar, em vez de tapetes sólidos de folhas.
  • Interrompa longos trechos de cobertura de solo com pedras, caminhos de cobertura morta ou faixas de solo descoberto.
  • Mantenha a vegetação aparada a pelo menos 30–45 cm das fundações da casa e dos degraus.
  • Levante e desbaste hera ou zimbro uma vez por ano, para que o sol consiga mesmo chegar ao solo.
  • Guarde lenha e “tralha” longe de plantações densas, e não encostadas a elas.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo uma ou duas vezes por ano já muda bastante o quão apelativo o seu jardim parece para uma cobra de passagem.

Viver com a natureza… sem sentir que vive num parque de répteis

Não precisa de declarar guerra a cada cobra que atravessa o seu quintal. A maioria é inofensiva, tímida e tem mais medo de si do que o contrário. O verdadeiro objetivo é o equilíbrio: um jardim verde e vivo que não se torne, por acidente, um resort de luxo para elas. Isso começa por olhar para plantas como a hera-inglesa não apenas como decoração, mas como arquitetura. Elas moldam espaço, temperatura e privacidade de formas que os animais percebem de imediato.

Quando abre aquele canto tomado pelo verde, não está só a “arrumar”. Está a reescrever o mapa de quem se sente em casa ali. Uma criança a aprender jardinagem ao seu lado. Um cão a andar à vontade. O vizinho que finalmente se senta cá fora porque já não está, em silêncio, a varrer cada sombra com os olhos.

Ainda assim, pode optar por manter alguma hera, ou uma mancha de cobertura baixa de que gosta. Talvez viva numa zona mais rural, onde as cobras são simplesmente parte do cenário. A questão é consciência, não pânico. Assim que percebe que certas plantas funcionam quase como um letreiro de “vago” para répteis, pode desenhar o jardim com isso em mente. Tufos mais baixos. Mais interrupções. Um pouco mais de luz a chegar ao solo.

E, curiosamente, essa consciência faz muitas pessoas apaixonarem-se de novo pelo jardim. Começam a reparar onde o vento passa, onde as aves se alimentam, onde o sol bate ao fim da tarde. Um quintal nunca é só um postal. É uma sala de estar sem paredes, que pode reorganizar em cada estação.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A hera-inglesa atrai cobras Cobertura densa e sombria abriga roedores e insetos, atraindo cobras no verão Ajuda a identificar uma planta de alto risco que pode já estar no seu quintal
Interromper coberturas de solo espessas Desbastar, levantar e segmentar hera, zimbro rasteiro e semelhantes todos os anos Reduz “túneis” escondidos por onde as cobras se movem sem serem vistas perto de zonas habitadas
Trocar por plantas mais arejadas Usar gramíneas, aromáticas e plantas com caules visíveis e luz a chegar ao solo Mantém o jardim apelativo, reduzindo a probabilidade de um foco de cobras

FAQ:

  • Que planta de jardim atrai mais frequentemente cobras? Especialistas apontam muitas vezes a hera-inglesa e outras coberturas de solo espessas e rasteiras como principais culpadas, porque criam corredores frescos e escondidos onde as cobras se sentem seguras e encontram presas.
  • Se eu remover a hera, as cobras desaparecem imediatamente? Não de forma imediata, mas remove um abrigo e uma zona de alimentação importantes; com o tempo, é menos provável que as cobras permaneçam ou estabeleçam uma “base” no seu quintal.
  • Todas as cobras no jardim são perigosas? A maioria das cobras que aparecem em jardins, como as cobras de liga (garter snakes), é inofensiva e até ajuda a controlar pragas; ainda assim, deve informar-se sobre que espécies venenosas existem na sua zona e manter cautela.
  • Que plantas são mais seguras se eu quiser uma cobertura baixa do solo? Procure plantas baixas, em manchas ou em tufos, com espaço entre caules, e combine com cobertura morta ou gravilha visíveis para haver menos esconderijo contínuo.
  • Além das plantas, o que mais atrai cobras? Pilhas de lenha sem gestão, relva alta, montes de detritos, comedouros de aves que deixam cair sementes para roedores e aberturas por baixo de anexos, alpendres ou degraus aumentam a probabilidade de visitas regulares de cobras.

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