Ninguém ataca.
Nas margens lamacentas do Pantanal brasileiro, é comum ver capivaras a pastar a poucos metros de jacarés imóveis ao sol. Os dois animais partilham lagoas e canais durante horas, quase a ignorarem-se. Para um observador sem experiência, é um paradoxo: porque haveria um superpredador de deixar escapar uma presa tão grande, lenta e aparentemente indefesa? A resposta, dizem biólogos que estudam estas cenas há anos, está num equilíbrio delicado entre energia, comportamento e abundância de alimento.
Como os crocodilianos realmente se alimentam
Predadores pacientes, não assassinos compulsivos
Crocodilos e jacarés não são máquinas de matar que mordem tudo o que lhes aparece à frente. São predadores oportunistas, feitos para poupar energia. Ficam à espera, quase imóveis na água, e atacam apenas quando as condições são verdadeiramente favoráveis.
A dieta varia muito consoante vários fatores:
- a região geográfica e o tipo de habitat (pântano, rio, lagoa)
- o tamanho e a idade do animal
- a estação do ano e as cheias dos rios
- a presença de outras presas mais fáceis
- a competição com outros predadores
Um jacaré jovem come sobretudo peixe, anfíbios e invertebrados. Um adulto pode passar a incluir mamíferos e aves. A escolha não é “emocional”, mas energética: quantas calorias ganho, quanto esforço faço e que risco corro?
A regra básica do crocodiliano é simples: nunca desperdiçar energia com presas que te possam ferir, fugir ou obrigar a uma luta longa e incerta.
O perfil da presa “ideal”
Os répteis aquáticos preferem animais distraídos e previsíveis, que se aproximem da água com pouca cautela. Presas que resistem, se defendem ou forçam uma perseguição prolongada tornam-se rapidamente desinteressantes.
Esta lógica já explica parte do mistério: a capivara, apesar do ar bonacheirão, não é uma vítima fácil.
Capivaras, os “gigantes mansos” que não querem ser comidas
Corpo de roedor, capacidade de nadar
A capivara é o maior roedor do planeta: um adulto pode pesar mais de 60 kg. Vive em contacto próximo com a água, onde se move com uma confiança que surpreende quem a imagina como uma “cobaia” gigante.
As suas defesas não são presas nem garras, mas adaptações muito eficazes:
- natação rápida e resistência notável
- capacidade de suster a respiração durante vários minutos
- olhos, orelhas e narinas no topo do crânio, perfeitos para vigiar com o resto do corpo submerso
- pele grossa e músculos compactos, capazes de absorver impactos e solavancos
Quando sente perigo, a capivara consegue deslizar quase na vertical para dentro de água e desaparecer de vista, deixando apenas uma pequena parte da cabeça exposta para respirar e observar.
A verdadeira arma: o grupo
Mais do que a força física, porém, a organização social é importante. As capivaras vivem em grupos estruturados de 10 a 20 indivíduos em condições normais, com agregações ainda maiores durante os períodos secos, quando a água se concentra em poucas massas de água remanescentes.
| Tamanho do grupo | Nível de alerta | Risco de predação |
|---|---|---|
| Solitária | Baixo | Alto |
| 5–10 indivíduos | Médio | Intermédio |
| 20 ou mais | Alto | Baixo |
Enquanto umas pastam, outras mantêm-se atentas à margem e à água. A primeira a notar um movimento suspeito emite um chamamento agudo e, em segundos, todo o grupo corre para o rio ou posiciona-se para proteger as crias.
Uma única capivara pode ser vulnerável. Vinte e cinco olhos vigilantes, porém, transformam um prado num sistema de aviso que é muito difícil de contornar para um predador de emboscada.
Coexistência armada: o que acontece quando se encontram
Cenários do Pantanal e dos Llanos
Investigação de longo prazo nas grandes zonas húmidas do Brasil e da Venezuela descreve mais ou menos a mesma cena: capivaras a pastar, jacarés a apanhar sol, alguns olhares trocados, nenhum ataque. Os cientistas registaram milhares de encontros a curta distância.
Numa das séries de monitorização mais citadas no Pantanal, as tentativas de predação foram inferiores a 0,5% das interações observadas. As mortes bem-sucedidas foram uma fração ainda menor. Nas planícies venezuelanas, as capivaras exibem um nível de “indiferença controlada”: mantêm-se alerta, mas não fogem ao simples avistamento de um crocodiliano.
Quando o crocodiliano ataca de facto
Os episódios de caça não estão totalmente ausentes, mas seguem sempre o mesmo padrão: um jovem isolado do grupo, um adulto enfraquecido, uma cria dentro de água.
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