A primeira coisa que se nota na cozinha nova da Sara não é uma ilha brilhante nem um backsplash de mármore. É a ausência. Nada de armários superiores volumosos a fecharem a luz, nada de portas de MDF inchadas a ficar tortas depois de demasiadas noites de massa com vapor. As paredes estão livres, com calhas metálicas finas e prateleiras claras, com cestos e frascos arrumados ao longo delas. Dá mesmo para ver os cantos da divisão. Dá mesmo para respirar ali dentro.
As amigas não param de perguntar o mesmo: “Onde é que estão os armários?”
Ela ri-se, dá uma pancadinha numa das gavetas sólidas escondidas nos móveis inferiores e pega num prato pendurado num gancho por cima da bancada. Há qualquer coisa nisto que sabe a liberdade.
A cozinha toda parece mais barata, mais leve… e como se pudesse, finalmente, aguentar a vida real.
Porque é que os armários de cozinha clássicos estão, discretamente, a sair de cena
Entre numa casa arrendada mais antiga e sente-se o cheiro antes de se ver. Aquele travo húmido e bafiento quando se abre a porta de um armário por cima do fogão ou da placa. Lá dentro, o revestimento descola, o aglomerado incha, e os frascos das especiarias ficam com aquele “anel” pegajoso de gordura de cozinhar. Os armários tradicionais - sobretudo os mais baratos - simplesmente não lidam bem com vapor, salpicos e o caos diário como a vida real os entrega.
Empenam, cedem, retêm humidade em cantos escuros onde o bolor se instala como um colega de casa não convidado.
Pergunte a qualquer proprietário com orçamento apertado e a história repete-se. No pico das remodelações durante a pandemia, muita gente correu a refazer cozinhas com armários de MDF económicos que ficavam bem no Instagram, mas envelheciam mal em tempo real. Um estudo no Reino Unido, feito por um grande retalhista de bricolage, concluiu que cerca de 40% das reclamações de cozinhas eram sobre portas a desalinharem, incharem ou descolorirem ao fim de poucos anos.
Nas redes sociais, começam a aparecer vídeos “antes/depois” em que o grande “depois” não são portas novas - é não haver armários superiores de todo. Só calhas, prateleiras, painéis perfurados e gavetões a fazer o trabalho pesado. De repente, a parede voltou a existir na divisão.
Há uma lógica simples por trás desta mudança. Caixas fechadas no alto da parede retêm humidade e calor, sobretudo acima de chaleiras e placas. O aglomerado e o MDF baratos absorvem isso como uma esponja e depois deformam-se aos poucos. Já os sistemas abertos deixam o ar circular. Menos humidade escondida, menos risco de bolor, menos peso a puxar por buchas duvidosas.
E usa-se tudo de outra forma. Quando pratos, copos e especiarias estão à vista, roda-se naturalmente o que se tem. Nada fica esquecido no fundo durante seis anos, a ganhar pó e humidade. O arrumo passa a fazer parte do ritmo diário, e não um arquivo escuro de gadgets inúteis e cereais rançosos.
A alternativa mais barata e mais resistente: sistemas abertos e gavetões
A nova estrela discreta de muitas remodelações nem sequer é um “armário”. É uma combinação de móveis inferiores robustos com gavetões fundos, emparelhada com arrumação aberta por cima da bancada: calhas de parede, prateleiras, suportes e pequenas plataformas. Meio cozinha de preparação de restaurante, meio casa de família vivida. Os gavetões guardam a tralha pesada e pouco glamorosa: panelas, tachos, taças de mistura, caixas herméticas com tampas duvidosas.
Em cima, ficam à vista os objectos leves: pratos, canecas, óleos, ingredientes de uso frequente. O sistema todo usa menos material do que uma parede inteira de armários, por isso muitas vezes sai mais barato para o mesmo comprimento de cozinha.
Veja-se o caso do Nabil e da Léa, um casal na casa dos 30 que remodelou a sua kitchenette de 3 metros num apartamento pequeno na cidade. O primeiro orçamento, com armários superiores clássicos em melamina e MDF, chegou aos dolorosos 5 200 €, sem electrodomésticos. Voltaram ao papel com outro plano: só móveis inferiores com gavetões de extração total, mais uma mistura de calhas em aço, uma prateleira de parede e um suporte estreito para tachos.
Ficaram nos 3 600 €, com montagem incluída. Dois anos depois, os gavetões brancos ainda deslizam suavemente, e as calhas metálicas por cima da bancada parecem quase novas. Quando a parede atrás da placa ficou salpicada, pintaram-na numa tarde - algo que antes teria significado trocar um conjunto inteiro de portas inchadas.
Do ponto de vista construtivo, esta abordagem é menos frágil. Os gavetões fundos, sobretudo com laterais metálicas, distribuem o peso de forma uniforme nas corrediças. Não dependem de meia dúzia de parafusos numa parede de pladur “assim-assim” como os armários superiores. Calhas e prateleiras abertas são mais leves, mais simples de fixar e, se enferrujarem ou empenarem, mais fáceis de substituir peça a peça.
E a grande mudança é tão psicológica quanto técnica. Quando se aceita que a cozinha não precisa de esconder tudo, fica-se livre para escolher materiais que lidam bem com humidade e calor: aço lacado a pó, madeira maciça tratada com óleo, frascos de cerâmica, recipientes de vidro. Envelhecem, ganham pátina, sobrevivem. Nada de aglomerado inchado à vista.
Como mudar para “sem armários superiores” sem cair no caos
A forma mais inteligente de aderir a esta tendência não é arrancar tudo de um dia para o outro, mas testar por secções. Comece por esvaziar um armário sobrecarregado e pergunte: o que é que eu uso mesmo todas as semanas? Esses são os itens que merecem arrumação aberta. Instale uma calha simples por cima da bancada com ganchos para canecas, um cesto pendurado para cebolas ou alho, e uma pequena prateleira para as especiarias do dia-a-dia.
Depois, se estiver a renovar, planeie gavetões grandes e organizados em baixo: um para pratos e taças com divisórias de pinos, um para tachos e frigideiras, um para secos em recipientes. Reduz-se o ruído visual em cima, mas ganha-se espaço funcional onde interessa.
O medo principal que as pessoas murmuram é: “Mas não vai ficar tudo cheio de pó?” Um pouco de pó, sim. Mas sejamos honestos: ninguém esfrega a prateleira de cima dos armários antigos todos os dias. Pelo menos com arrumação aberta, o que se usa muito mantém-se limpo pelo uso, e o que ganha pó está visível o suficiente para se limpar em menos de um minuto. O verdadeiro inimigo não é o pó; é a desarrumação.
Se cada superfície estiver coberta de gadgets aleatórios e canecas desencontradas de 2009, qualquer sistema vai parecer confuso. Uma cozinha mais leve funciona quando se edita. Doe duplicados, recicle peças lascadas e mantenha apenas o que gosta mesmo de ver todas as manhãs. O seu “eu” do futuro, a pegar no café num espaço calmo e claro, vai agradecer.
“No início, mudar para sem armários superiores pareceu arriscado”, admite a Sara, debaixo da sua parede branca nua. “Mas ao fim de umas semanas, percebi que não estava a sentir falta de arrumação. Estava a sentir falta de espaço. Agora, limpar demora metade do tempo e nada cheira a bafio quando faço uma panela grande de sopa.”
- Use calhas em vez de caixas: são baratas, flexíveis e deixam o ar circular à volta da loiça e dos utensílios.
- Escolha materiais que não se importam com vapor: metal, vidro, madeira maciça, pedra; evite aglomerado fino sempre que puder.
- Reserve o espaço alto para objectos leves e de uso diário, e mantenha as pilhas pesadas em gavetões baixos.
- Proteja as paredes com tinta lavável ou painéis laváveis atrás da placa, em vez de fundos frágeis de armários.
- Pense de forma modular: prateleiras e suportes que pode mover à medida que os hábitos ou as necessidades da família mudam.
Uma cozinha que respira - e cresce consigo
Depois de se ver uma cozinha sem armários superiores, o estilo antigo pode parecer estranhamente sufocante. Todas aquelas caixas a pressionar por cima, a levantar nas quinas, a esconder frascos esquecidos de lentilhas compradas em 2017. A nova tendência não é tanto uma moda estética passageira, mas uma mudança na relação com a divisão onde se vive, cozinha, petisca e, por vezes, se fica só parado com o frigorífico aberto.
Não precisa de um espaço perfeito de revista. Precisa de um que não apodreça quando se coze massa duas vezes por semana, que não esconda bolor atrás de uma porta a imitar madeira, que possa ser limpo e repintado em vez de arrancado. Um lugar onde as paredes possam respirar - e você também.
Há também uma honestidade tranquila em ter os objectos do dia-a-dia à vista. A caneca preferida num gancho, o azeite que realmente usa, a frigideira que faz 80% do trabalho. Vê-se os hábitos reais, não a vida de fantasia vendida em catálogos brilhantes. Isso pode ser desconfortável - ou estranhamente reconfortante.
Talvez compre menos, mas melhor. Talvez finalmente aceite que nunca usa a máquina de waffles e a ofereça a alguém que a use. Uma cozinha sem armários altos deixa mais espaço não só para a luz, mas para esse tipo de “edição” suave das próprias rotinas.
Algumas pessoas vão sempre preferir o visual fechado e contínuo de armários de parede a parede. Tudo bem. Ainda assim, cada vez mais pessoas a remodelar - sobretudo com orçamentos apertados - estão a descobrir que dispensar essas caixas de cima liberta dinheiro para bancadas mais resistentes, melhor ferragem de gavetas ou um bom exaustor. Coisas que realmente resistem ao tempo, ao vapor e a adolescentes desarrumados.
Talvez hoje à noite esteja na sua cozinha actual, abra aquela porta ligeiramente empenada por cima da placa e apanhe o cheiro dos anos acumulados. A nova tendência sussurra uma pergunta simples: e se você simplesmente… não voltasse a pôr essa caixa na parede?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Menos armários superiores, mais sistemas abertos | Use calhas, prateleiras e suportes em vez de armários de parede completos | Solução mais barata, divisão mais luminosa, menor risco de empeno e bolor |
| Investir em gavetões inferiores robustos | Gavetões fundos com corrediças de qualidade aguentam itens pesados em baixo | Acesso mais fácil, melhor organização, arrumação mais duradoura |
| Escolher materiais amigos da humidade | Metal, vidro, madeira tratada e tinta lavável em vez de aglomerado fino | Menos danos do vapor, limpeza mais simples, menos substituições caras |
FAQ:
- As prateleiras abertas mantêm-se limpas o suficiente para a loiça do dia-a-dia? Sim, se guardar apenas o que usa com regularidade. O uso frequente evita que o pó assente, e uma passagem rápida durante a limpeza normal costuma chegar.
- Esta tendência é adequada para cozinhas pequenas? Muitas vezes, sim - sobretudo em espaços apertados onde armários superiores fazem a divisão parecer ainda mais exígua. A arrumação aberta amplia visualmente a área e mantém tudo à mão.
- E o valor de revenda se eu tirar todos os armários superiores? Cada vez mais compradores esperam cozinhas claras e abertas. Desde que haja arrumação funcional suficiente em gavetas e móveis inferiores, é pouco provável que isso prejudique o valor.
- Vou perder espaço de arrumação em comparação com armários clássicos? Pode perder algum espaço “para o caso de um dia precisar”, mas ganha espaço útil e ergonómico. Muitas pessoas descobrem que tinham mais tralha do que coisas realmente necessárias.
- Posso manter alguns armários e ainda seguir esta tendência? Claro. Muitas pessoas combinam um ou dois armários superiores estratégicos com prateleiras ou calhas, sobretudo junto da placa ou do lava-loiça, encontrando um equilíbrio que se ajusta aos seus hábitos.
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