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Este sinal subtil surge muitas vezes antes de percebermos que estamos sobrecarregados.

Mãos escrevendo num caderno ao lado de um copo de água, uma lima, um portátil e um relógio num escritório.

O e-mail não era urgente, não propriamente.
Apenas uma breve “pergunta rápida” da chefe que, de alguma forma, engoliu a noite inteira da Emma. Deu por si na cozinha, com a porta do frigorífico aberta, a olhar para um frasco de pickles como se lá estivesse o sentido da vida. O telemóvel vibrou outra vez em cima da bancada. O companheiro chamou-a pelo nome duas vezes antes de ela sequer pestanejar.

Foi aí que percebeu que estava a suster a respiração.

“Não estou stressada”, disse para si. “Estou só cansada. Só ocupada. Só… com muita coisa.”
Só mais tarde reparou que aquele olhar vazio e estranho tinha passado a ser o seu novo normal.

Um sinal discreto que o cérebro lhe enviava muito antes de ela admitir que estava no limite.

O sinal subtil de que ninguém fala

Há um instante minúsculo, quase invisível, que aparece antes do burnout, antes das lágrimas na casa de banho, antes daquele ataque de nervos por causa de uma caneca por lavar.
Nem sempre é o coração acelerado, ou insónia, ou responder torto às pessoas.

É desligar.

Aquele “atraso” mental em que o corpo está ali, mas a mente parece ter puxado uma cortina a meio. Lê a mesma frase três vezes. Abre um separador e esquece-se do motivo. Entra numa divisão e fica parado à porta, em branco.

Chamamos-lhe distração ou “estar um bocado fora”.
Mas, muitas vezes, é o cérebro a dizer baixinho: estou sem capacidade.

Pense na última vez que esteve a fazer scroll no telemóvel, não por diversão, mas porque a cabeça estava demasiado enevoada para fazer outra coisa. Não estava a descansar. Também não estava realmente a consumir conteúdo. Estava a flutuar.

Os investigadores por vezes chamam-lhe sobrecarga cognitiva: a “RAM” mental está cheia, por isso tudo começa a engasgar. Um inquérito britânico da YouGov concluiu que cerca de 60% dos trabalhadores se sentem regularmente “mentalmente drenados” ao meio-dia, mas a maioria ainda se descreve como “a aguentar”. Essa expressão faz um trabalho enorme.

Pessoas como a Mia, 34 anos, contabilista, que disse a um colega que estava “tudo bem” e depois percebeu que tinha estado a olhar fixamente para a célula D14 de uma folha de Excel durante nove minutos seguidos. Sem contas. Só o cursor a piscar e o cérebro vazio.

Do ponto de vista do cérebro, este sinal não é preguiça. É autodefesa.
Quando estamos a fazer malabarismo com demasiadas tarefas, prazos, separadores, conversas, o córtex pré-frontal - a parte que gere o planeamento e a tomada de decisões - começa a falhar.

Então o cérebro entra numa espécie de modo de poupança de emergência. A concentração fragmenta-se. O tempo escapa. Sente-se “fora” da sua própria vida, a ver-se a passar por ela.
Esta dissociação subtil pode surgir muito antes dos sintomas clássicos de stress.

O problema é que a nossa cultura glorifica o “aguentar mais um bocadinho”. Somos treinados para desconfiar de qualquer sinal de que talvez precisemos de abrandar.
E assim este aviso precoce é ignorado, até o sistema colapsar.

Como responder quando o seu cérebro começa a “engasgar”

Há uma coisa pequena e concreta que pode fazer da próxima vez que der por si a olhar para uma parede, um ecrã ou o vazio.

Dê um nome ao momento.

Diga baixinho, nem que seja só na sua cabeça: “O meu cérebro está no limite.”
Depois pare durante 90 segundos.
Não é uma grande meditação, nem uma pausa completa - são apenas 90 segundos em que baixa os ombros, relaxa a mandíbula e olha para um objeto real à sua frente. A caneca, o teclado, a planta no parapeito da janela.

Repare em três detalhes desse objeto.
Deixe a respiração voltar a acompanhar o corpo.
Não está a “perder tempo”. Está a recuperar o seu cérebro.

Isto parece embaraçosamente simples. É por isso que a maioria das pessoas não o faz.
Esperamos por um dia de folga, por férias, por “quando as coisas acalmarem”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente.
Adiamos o descanso como se fosse um luxo reservado a quem tem menos responsabilidades. O erro comum é achar que ou fazemos um reset total, ou não vale a pena.

Essas micro-pausas - os 90 segundos, os dois minutos entre reuniões, o minuto a olhar pela janela - são como primeiros socorros mentais.
Ignorá-las é como caminhar com um tornozelo torcido porque o osso ainda não partiu.

Algumas pessoas sentem culpa quando param, mesmo por um instante. Ouvem aquela voz interior: estás a perder tempo, estás a exagerar, despacha-te. Essa voz não é sabedoria. É hábito, misturado com medo.

“Finalmente percebi que não era preguiçosa”, disse-me uma leitora. “Estava sobrecarregada. O meu cérebro estava a fechar as persianas para eu não me desfazer.”

Para mudar essa voz, ajudam alguns pequenos “âncoras” visíveis:

  • Coloque uma app ou widget discreto de temporizador no ecrã inicial com o nome “Reset 90s”.
  • Escolha um momento diário de “transição” (depois de uma reunião, antes de começar a fazer o jantar, ao sair do comboio/metro) e associe-lhe a pausa de 90 segundos.
  • Diga a uma pessoa de confiança: “Se me vires a desligar a sério, lembra-me que posso estar no limite - não a falhar.”
  • Tenha um objeto na secretária que signifique “abrandar”: uma pedra, uma fotografia, uma pequena planta.
  • Uma vez por semana, escreva uma única frase: “Em que momentos notei o meu cérebro a engasgar esta semana?”

Isto não são truques de produtividade. São formas silenciosas de dizer: tenho direito a ser humano.

Ouvir os avisos silenciosos antes de eles rugirem

Há uma espécie de vergonha estranha à volta do estar no limite.
Vivemos num mundo onde as pessoas se gabam de estar “cheias de trabalho” e respondem “ocupado, e tu?” como se fosse uma medalha. Admitir que o seu cérebro está a desligar aos poucos parece fraqueza. Ou como se não tivesse sido feito para a vida moderna.

No entanto, este sinal subtil - desligar, ficar em “buffer” mental - pode ser uma das poucas coisas honestas que o seu corpo faz durante o dia.
É o sistema nervoso a puxar-lhe pela manga, muito antes de acabar em lágrimas, doença ou num emprego do qual um dia simplesmente se vai embora.

Se começar a reparar nele, também pode reconhecer os “primos” deste sinal:
A forma como relê mensagens sem responder. A forma como evita começar pequenas tarefas que antes eram fáceis. A forma como mantém um separador aberto durante dias porque fechá-lo implicaria decidir alguma coisa.

Nada disto significa que está “estragado”. Significa que está sobrecarregado.
Há uma diferença.
E quando percebe essa diferença, pode experimentar: listas de tarefas mais curtas. Expectativas um pouco mais gentis. Uma coisa de cada vez, em vez de cinco. Dizer “preciso de dez minutos” em vez de fingir que está tudo bem.

Às vezes é aí que começa a resiliência a sério: não no momento da crise, mas nos minutos silenciosos antes dela.

Todos já passámos por isso: o corpo continua a mexer-se, mas a mente saiu discretamente para o corredor para respirar. Dá por si a olhar fixamente, a fazer scroll, a derivar - e julga isso como fraqueza. E se não for?

E se esse sinal subtil for uma sirene antecipada, só que sussurrada em vez de gritada?
Um convite para renegociar o acordo que fez com o seu tempo, o seu telemóvel, o seu trabalho, o seu coração cansado.

Isto não é sobre ficar perfeito na “autoajuda” ou passar a viver uma vida calma e organizada de um dia para o outro. É sobre notar a pequena luz vermelha no painel mental antes de o motor sobreaquecer.

Da próxima vez que sentir essa pausa em branco, a flutuar, talvez não a afaste tão depressa.
Talvez a reconheça.
E talvez pergunte a si mesmo, em silêncio: de que é que o meu cérebro me está a tentar proteger agora?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Sinal de alerta precoce Desligar e “atraso” mental surgem muitas vezes antes dos sintomas clássicos de stress Ajuda a detetar a sobrecarga quando ainda há margem para agir
Reset simples de 90 segundos Nomear a sobrecarga, focar um objeto e respirar durante 90 segundos Dá uma ferramenta concreta e realista para um dia cheio
Reenquadrar a culpa Ver momentos em branco como sobrecarga, não como preguiça ou falha Reduz a vergonha e incentiva limites e escolhas mais saudáveis

FAQ:

  • Pergunta 1 O “desligar” é sempre sinal de que estou sobrecarregado?
  • Pergunta 2 Como distinguir cansaço normal de sobrecarga a sério?
  • Pergunta 3 E se eu não conseguir fazer uma pausa a sério quando noto este sinal?
  • Pergunta 4 Porque é que me sinto culpado quando abrando, mesmo por um minuto?
  • Pergunta 5 Este tipo de “atraso” mental pode estar ligado à ansiedade ou ao PHDA (ADHD)?

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