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A psicologia explica porque as emoções podem parecer desligadas da realidade.

Mulher meditando, mão no peito, sentada à mesa com caderno e copo, sombra de pessoa na parede ao fundo.

Estás sentado(a) à secretária, e-mails em dia, o dia a correr mais ou menos bem. E, de repente, cai na tua caixa de entrada uma mensagem pequenina. Uma frase neutra. Sem emoji. Sem ponto de exclamação. O peito aperta, como se alguém te tivesse acabado de gritar. A cabeça dispara: “O que é que eu fiz de errado?” A sala não mudou, a luz é a mesma, mas por dentro tudo fica subitamente mais alto, mais duro, quase irreal.

Mais tarde, ao releres o e-mail, vês que era perfeitamente normal. Nada de agressivo nas entrelinhas, nenhuma crise. Apenas o teu sistema nervoso a lançar um sinal de alerta num céu completamente calmo.

Porque é que isso acontece?

Quando o teu cérebro reage a fantasmas em vez de factos

Os psicólogos descrevem muitas vezes as emoções como “palpites rápidos”. O teu cérebro varre o mundo e, numa fracção de segundo, decide se estás em segurança, em perigo, rejeitado(a) ou amado(a). Esse palpite baseia-se menos no momento em si e mais no teu passado, nas tuas crenças, nos teus medos.

Por isso, a tua reacção emocional não é um espelho limpo da realidade. É uma mistura de memórias antigas, histórias por acabar e interpretações à velocidade da luz que a tua mente consciente quase nem vê.

É por isso que um olhar rápido, uma resposta atrasada ou uma meia-piada podem parecer um terramoto por dentro.

Pensa na Rita, 32 anos, que desatou a chorar num supermercado porque o parceiro se esqueceu de comprar o iogurte preferido dela. À superfície, é absurdo. O iogurte é substituível. As prateleiras estão cheias. Não aconteceu nada de trágico.

Mas, para a Rita, aquele esquecimento ecoava uma infância em que as necessidades dela eram frequentemente desvalorizadas. O corpo dela não reagiu a um produto lácteo. Reagiu à crença antiga: “Eu não importo o suficiente.”

Já todos passámos por isto: o momento em que a cena de hoje toca numa ferida do passado com tanta precisão que, de fora, a reacção parece completamente desproporcionada.

A psicologia chama a esta “desligação” emocional um desfasamento entre o acontecimento que dispara o gatilho e a intensidade da emoção. O teu sistema nervoso depende de atalhos: padrões que aprendeu a reconhecer, por vezes há décadas.

Se o teu cérebro associou, em tempos, vozes levantadas a perigo, ou silêncio a rejeição, mantém essas regras até que algo as actualize. Assim, um desacordo calmo pode parecer um ataque. Um amigo a precisar de espaço pode parecer abandono.

O sentimento é real. A história que o teu cérebro está a contar sobre o que se passa pode não ser.

Como abrandar a tempestade emocional sem a negar

Um método prático que muitos terapeutas usam chama-se “nomear e localizar”. A ideia é simples e dá para fazer sozinho(a). Primeiro, nomeia a emoção em uma ou duas palavras: raiva, pânico, vergonha, tristeza. Depois, localiza-a no corpo: garganta, estômago, peito, maxilar.

Ao dares um rótulo e um lugar físico, dás um pequeno passo para te afastares da fusão com o sentimento. Já não é “eu sou pânico”. Passa a ser “eu sinto pânico no peito”.

Essa micro-distância abre espaço suficiente para a curiosidade.

O passo seguinte: fazer a ti próprio(a) duas perguntas separadas. “O que é que aconteceu, de facto?” e “Que história é que eu estou a contar a mim próprio(a) sobre o que aconteceu?” Se conseguires, escreve.

Exemplo: “O que aconteceu: o meu chefe disse que precisamos de falar amanhã. História: estou em sarilhos, estou a falhar, vou perder o emprego.” De repente, vês o salto entre a realidade e a interpretação.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente. Ainda assim, nos dias em que fazes, pode impedir a tua mente de correr a alta velocidade até à catástrofe.

Às vezes, a coisa mais corajosa não é acalmar depressa, mas ficar com o sentimento tempo suficiente para perceber do que é que ele realmente está a falar.

  • Pára 10 segundos antes de reagires, só o suficiente para notares: “Isto activou-me.”
  • Muda de contexto por um instante: bebe água, vai a outra divisão, olha pela janela.
  • Faz uma pergunta de ancoragem: “O que mais poderia isto significar, para além do meu pior medo?”
  • Escreve uma frase crua nas notas do telemóvel: “Neste momento sinto… porque estou a dizer a mim próprio(a)…”
  • Contacta uma pessoa segura com uma mensagem simples: “A minha reacção parece grande. Podes ajudar-me a confirmar a realidade?”

Viver com emoções que nem sempre combinam com o momento

Quando começas a reparar nestes desfasamentos, o dia-a-dia muda. O colega que responde torto numa reunião pode não estar a ser mal-educado; pode estar aterrorizado com a ideia de errar. O amigo que desaparece das mensagens durante uma semana pode não estar farto de ti; pode estar sobrecarregado e a desligar.

E tu, a chorar na cozinha por causa de um jantar que ficou demasiado passado, podes não ser “sensível demais”. Podes estar a reviver, de uma só vez, todas as vezes em que te sentiste invisível, numa noite de terça-feira.

A psicologia não apaga as tuas reacções. Dá-te linguagem e um mapa. Começas a reconhecer quando estás a falar com o presente e quando estás a discutir com o passado. Algumas pessoas fazem isto em terapia, outras com diários, outras simplesmente prestando mais atenção.

Aos poucos, o espaço entre o que está a acontecer e o que sentes torna-se um lugar que podes explorar, e não uma armadilha onde cais. O objectivo não é seres perfeitamente racional. É sofreres menos com fantasmas que o teu corpo ainda acredita serem reais.

Talvez comeces a fazer perguntas diferentes: “A voz de quem é que isto me lembra?” “Quando é que eu aprendi, pela primeira vez, que isto era perigoso?” “Se a minha reacção pudesse falar, o que é que ela me pediria para proteger?”

Não são perguntas de solução rápida. São portas. Pedem-te para levares as tuas emoções a sério sem lhes obedeceres cegamente.

A realidade mantém-se. A tua relação com os teus alarmes internos começa a mudar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o(a) leitor(a)
As emoções são “palpites rápidos” Baseiam-se em padrões do passado, não apenas na situação actual Ajuda-te a parar de te culpares por “exagerar” e a procurar a fonte real
Separar factos de histórias Escrever o que aconteceu vs. o que acreditas que significa Reduz picos de ansiedade e devolve uma sensação de controlo
Usar ferramentas simples de ancoragem Nomear o que sentes, localizar no corpo e fazer uma pausa antes de agir Torna reacções intensas mais geríveis no dia-a-dia

FAQ:

  • Porque é que eu choro por coisas “pequenas”?
    Muitas vezes, a coisa “pequena” está a tocar numa ferida muito mais antiga. O teu corpo responde não só ao acontecimento actual, mas a experiências acumuladas de te sentires ignorado(a), em risco ou criticado(a).
  • Ter reacções grandes significa que sou instável?
    Não. Reacções emocionais fortes costumam significar que o teu sistema nervoso é muito sensível ou aprendeu a manter-se em alerta máximo. Com prática e apoio, podes aprender a regulá-lo melhor.
  • Como é que sei se a minha reacção corresponde à realidade?
    Pede a uma pessoa de confiança para te ajudar a confirmar a realidade, ou compara a tua resposta com o conselho que darias a um(a) amigo(a) na mesma situação. Se falasses com ele(a) de forma mais gentil do que falas contigo, pode haver um desfasamento.
  • A terapia pode mesmo mudar estes padrões?
    Sim. Abordagens como a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental), EMDR ou terapia dos esquemas ajudam a actualizar crenças antigas e reflexos emocionais, para que as tuas reacções se ajustem melhor ao presente.
  • O que posso fazer no momento em que me sinto esmagado(a)?
    Abranda a respiração, sente os pés no chão, nomeia o que sentes e adia decisões importantes. Mesmo dois minutos de pausa podem suavizar a intensidade o suficiente para pensares com mais clareza.

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