Saltar para o conteúdo

Chuvas excessivas podem transformar o Sara e desequilibrar a frágil estabilidade de África, alerta estudo.

Pessoa realiza análise de solo em cultura agrícola no deserto, segurando frasco. Casario e dunas ao fundo.

Na orla do Saara, ainda há quem observe o céu como se fosse um relógio.
Numa tarde deste inverno, no sul de Marrocos, um horizonte cor de areia desapareceu de repente atrás de uma parede de nuvens escuras. O ar ficou pesado - aquele peso que parece comprimir o peito antes de uma tempestade. Depois, o céu abriu-se.

Em poucos minutos, as ruas tornaram-se rios. As crianças chapinhavam onde, normalmente, os carros buzinam. Homens idosos ficavam em silêncio a olhar para a corrente, divididos entre a alegria e a inquietação. A chuva é uma bênção por aqui - até deixar de o ser.

Agora, os cientistas avisam: se essas nuvens carregadas continuarem a chegar, o próprio Saara pode mudar.
E, com ele, o equilíbrio frágil de África.

Quando o deserto começa a ficar verde - e porque isso não é apenas boa notícia

Por todo o Norte de África, os meteorologistas registam discretamente números que, há algumas décadas, pareceriam absurdos. A precipitação anual a subir. Tempestades a entrar mais fundo em zonas que se julgavam demasiado secas para “valer a pena”. Imagens de satélite a revelar ténues faixas verdes onde antes só brilhavam areias ocres.

No terreno, a sensação é confusa. Um pastor no Níger vê ervas frescas a nascer onde o pai só conheceu pó. Um agricultor na Mauritânia observa arbustos espontâneos a reconquistarem dunas que avançavam em direcção aos seus campos. Parece esperança, como um milagre em câmara lenta.

Mas um deserto não começa a mudar sem que o resto do continente o sinta.

No norte do Chade, aldeões junto à margem do maciço de Ennedi falam do “ano em que o uádi voltou”. Um leito de rio seco, que durante décadas não passava de uma cicatriz, correu de repente durante semanas após uma sequência de tempestades intensas. As cabras encontraram água sem terem de andar o dia inteiro. Algumas famílias semearam sorgo de ciclo curto em solos que não viam uma semente há anos.

Ao início, parecia uma história exagerada. Depois surgiram imagens de drones: manchas verdes a abrirem-se em leque sobre a areia pálida, charcos temporários a brilharem nas depressões. Imagens semelhantes apareceram em partes da Argélia, do Mali e do Sudão. Investigadores do clima juntaram as peças e viram um padrão, não uma anedota. Um estudo concluiu que algumas zonas do Sahel já recebem até mais 20% de chuva do que na década de 1970.

Um novo mapa cintilante do Saara está, silenciosamente, a formar-se.

Os cientistas falam em “pontos de viragem climáticos”, mas no Saara essa viragem não se parece com um precipício. Parece-se com estações que deslizam, mais algumas tempestades por ano, manchas de mato que resistem em vez de desaparecer. A investigação mais recente sugere que, se o aquecimento global continuar a aquecer os oceanos e a deslocar os sistemas de monção, a chuva no Saara poderá aumentar muito para além destes primeiros sinais.

Isso poderia empurrar o deserto para um estado mais verde, ecoando períodos antigos em que grande parte da região era uma savana pontuada por lagos. Mas toda a grande mudança tem vencedores e perdedores. Mais chuva pode arrastar solos frágeis, derrubar casas pensadas para a secura e inundar cidades cuja drenagem é, basicamente, “a areia absorve tudo”.

O Saara tornar-se menos deserto não garante paz nem prosperidade.

Os riscos escondidos por detrás de um Saara mais húmido

A primeira reacção ao ouvir “mais chuva no deserto” é simples: ainda bem, finalmente. No papel, mais água significa mais culturas, menos fome, menos deslocações desesperadas através de fronteiras. Agrónomos já imaginam novos cinturões de milheto, tâmaras e até hortícolas ao longo da margem sul do Saara, alimentados por charcos sazonais e aquíferos recarregados.

Mas os mesmos modelos que preveem manchas mais verdes também avisam para chuva a chegar da forma errada. Aguaceiros súbitos e violentos em vez de chuvas sazonais suaves. Longos períodos secos e, depois, tempestades explosivas que abrem ravinas pelos campos. Quando os telhados são planos, as estradas não são asfaltadas e as casas são feitas de adobe, esse tipo de água não alimenta - destrói.

Um deserto húmido pode continuar a ser um lugar duro para viver.

Em 2020, chuvas intensas inundaram partes do Níger e da Nigéria, causando centenas de mortos e deslocando mais de meio milhão de pessoas. Muitas viviam na faixa do Sahel, essa zona de transição delicada entre a areia do Saara e as savanas. Cidades como Niamey e Maradi viram pontes ruírem, gado afogar-se e bairros inteiros serem arrastados. As chuvas não se distribuíram ao longo de meses. Chegaram em pulsos, como alguém a passar uma torneira de “fechado” para “cheia”.

Todos conhecemos esse momento em que algo que desejávamos muito finalmente acontece - mas na altura errada, da forma errada. Para milhares de famílias sahelianas, “mais chuva” significou funerais, não celeiros cheios. O estudo mais recente sobre o Saara avisa que, à medida que o aquecimento continua, este padrão de precipitação violenta e irregular pode estender-se mais para norte, para áreas mal preparadas até para uma trovoada normal, quanto mais para uma enxurrada “de uma geração” a cada poucos anos.

A abundância, quando não é gerida, transforma-se rapidamente em caos.

Há também a política invisível da água. Se partes do Saara e do Sahel ficarem mais húmidas, terras antes consideradas marginais tornam-se, de repente, valiosas. Governos podem redesenhar zonas agrícolas. Investidores podem olhar para novos projectos de rega. Comunidades nómadas que se deslocam há séculos podem ver antigas rotas de pastoreio vedadas, tituladas ou simplesmente tomadas.

Investigadores que modelaram um Saara muito mais húmido alertam para o que isso pode significar para a estabilidade. As zonas de produção alimentar mudariam. As rotas migratórias - já intensas das áreas rurais para cidades como Lagos, Cairo e Casablanca - poderiam inclinar-se de novo à medida que as pessoas perseguem novas “fronteiras verdes”. Algumas regiões costeiras, atingidas pela subida do nível do mar e pelo calor, podem perder atractivo precisamente quando zonas do interior começam a florescer. Um cientista do clima resumiu-o sem rodeios num artigo: não se move o deserto sem mover pessoas.

O equilíbrio frágil de África não é só sobre temperatura. É sobre onde a esperança aterra fisicamente.

Como África se pode preparar para um deserto que já não se comporta como deserto

Então o que se faz quando um deserto começa a agir de forma imprevisível? No terreno, as respostas mais eficazes são surpreendentemente locais e práticas. Construir drenagem em aldeias que nunca precisaram dela. Elevar estradas e reforçar passagens hidráulicas ao longo de rotas comerciais essenciais. Ajudar agricultores a mudar de culturas de ciclo longo para variedades que aguentem períodos secos seguidos de enxurradas repentinas.

Engenheiros no Senegal já estão a experimentar pavimentos baratos e permeáveis em subúrbios em rápido crescimento, para permitir que a água das tempestades se infiltre em vez de transformar ruas em torrentes. No Níger, algumas comunidades estão a recuperar cordões de pedra - linhas baixas de rochas dispostas transversalmente em encostas - para travar o escoamento e deixar a água preciosa entrar no solo. Não são megaprojectos chamativos.

São pequenos escudos contra um céu que está a começar a mudar de ideias.

Uma verdade dura: a maioria das pessoas que vive na margem do Saara não tem o luxo de arrancar a vida pela raiz ao primeiro sinal de problemas climáticos. Ajustam-se, improvisam e, por vezes, apenas aguentam. Por isso, a adaptação não pode viver apenas em grandes conferências globais ou em planos climáticos vistosos. Tem de aparecer na forma como as casas são construídas, onde as escolas ficam, e como os mercados locais armazenam alimentos entre colheitas irregulares.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. A maioria de nós vai andando até a crise bater à porta. Mas, à medida que os padrões de chuva se distorcem, esperar por “provas” pode ser mortal. Maus hábitos - como construir em leitos de rios secos ou pavimentar planícies de inundação para habitação rápida - já estão a chocar de frente com o novo clima. Quando uma cidade cresce por necessidade e não por desenho, uma única tempestade anómala pode apagar uma década de progresso.

É aqui que empatia e planeamento ou se encontram, ou chocam.

Por todo o continente, um coro discreto de especialistas repete a mesma mensagem em línguas e sotaques diferentes:

“A chuva está a mudar de morada”, diz um climatólogo queniano. “Se não mudarmos os nossos mapas - físicos e políticos - vamos continuar a ser apanhados de surpresa pela mesma tempestade.”

Para transformar esse aviso em acção, várias prioridades regressam continuamente nos estudos e relatórios de campo:

  • Reforçar os sistemas de aviso precoce para que as aldeias saibam da chegada de tempestades extremas por rádio, SMS ou altifalantes - e não por boatos.
  • Proteger e restaurar amortecedores naturais - zonas húmidas, dunas e vegetação - que absorvem ou abrandam as cheias.
  • Apoiar meios de subsistência móveis, como o pastoreio, em vez de empurrar toda a gente para parcelas fixas e vulneráveis.
  • Investir em infra-estruturas inteligentes face ao clima onde as pessoas já vivem, em vez de realojar comunidades apenas depois de desastres.
  • Partilhar dados entre países, porque as nuvens não ligam a fronteiras.

Um continente numa encruzilhada com o seu próprio deserto

A ideia de que chuva em excesso pode, lentamente, reescrever o Saara parece quase mítica ao princípio, como uma fábula sobre um gigante adormecido a acordar. Mas a ciência por detrás disso é fria, numérica, paciente. Modelos a correr milhares de vezes. Arquivos de satélite analisados à procura de pequenas riscas verdes. Medidores de caudal a registar subidas súbitas onde os gráficos antes eram linhas planas.

Para as pessoas comuns, a pergunta não é “O Saara vai estar mais verde em 2100?”
É muito mais simples, e muito mais cortante: “A próxima grande tempestade vai levar a minha casa?”

Há aqui um paradoxo estranho. Um Saara mais húmido pode alimentar mais pessoas a longo prazo e, ainda assim, libertar mais desastres no curto prazo. Cidades de Dakar a Cartum estão presas entre dois futuros: um em que um planeamento audaz transforma chuva caprichosa em vida, e outro em que cada época de chuvas é uma roleta. O equilíbrio climático de África já é frágil, esticado entre secas, cheias e ondas de calor que testam corpos que ainda trabalham, na sua maioria, ao ar livre.

O que acontecer nos padrões de nuvens do Saara não ficará por lá. Vai ecoar nos preços dos alimentos em supermercados europeus, nos debates sobre migração em programas de comentário, nos mercados de matérias-primas na Ásia. O destino de um deserto é, silenciosamente, um assunto global.

E, no entanto, esta história não está escrita em pedra - nem em areia. Políticas podem orientar o investimento para longe de planícies de inundação de alto risco. As escolas podem ensinar às crianças por que um leito de rio seco hoje pode ser uma zona de perigo amanhã. Líderes locais podem elevar vozes de aldeias que vêem os primeiros sinais muito antes de os satélites os detectarem.

Da próxima vez que nuvens escuras se juntarem sobre dunas e as pessoas olharem para cima, esse momento terá mais peso do que um simples desejo de chuva. Será uma pergunta sobre que tipo de continente - e que tipo de mundo - estamos a construir para um clima que já não segue as regras antigas.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O excesso de chuva pode “esverdear” partes do Saara Estudos mostram aumento da precipitação e manchas de vegetação em algumas zonas do deserto e do Sahel Ajuda a perceber por que imagens surpreendentes de um Saara mais verde são reais - e o que significam
Mais água nem sempre significa menos risco Aguaceiros intensos provocam cheias, erosão e deslocação de pessoas em regiões construídas para a secura Esclarece por que as alterações climáticas podem trazer oportunidade e desastre ao mesmo tempo
A preparação começa com acções locais e concretas Drenagem, planeamento do uso do solo, avisos precoces e apoio a meios de subsistência móveis Mostra formas práticas de adaptação, em vez de esperar pela solução global “perfeita”

FAQ:

  • Pergunta 1: O Saara está mesmo a ficar mais verde, ou é só mediatismo?
  • Resposta 1: Dados de satélite e estudos de campo mostram, de facto, aumento de vegetação em algumas franjas do Saara e do Sahel, em grande parte devido a mudanças nos padrões de precipitação. Isso não quer dizer que todo o deserto esteja a transformar-se numa floresta luxuriante, mas sim que, em certas áreas onde a chuva se tornou mais frequente ou mais intensa, estão a expandir-se manchas de mato, ervas e zonas húmidas sazonais.
  • Pergunta 2: Porque é que mais precipitação no Saara pode ser um problema para África?
  • Resposta 2: Porque a chuva chega muitas vezes sob a forma de tempestades violentas que atingem infra-estruturas, habitações e campos nunca concebidos para extremos deste tipo. Cheias, erosão, surtos de doença e perdas súbitas de colheitas podem desestabilizar regiões já frágeis, provocar deslocações e alimentar tensões em torno de terras e água que passam a ser valiosas.
  • Pergunta 3: Um Saara mais húmido pode ajudar a reduzir a fome no continente?
  • Resposta 3: Potencialmente, sim - se os novos padrões de precipitação forem aproveitados com cuidado. Cinturões mais verdes podem suportar mais pastoreio e algumas culturas. Mas esse benefício depende de planeamento: conservação do solo, rega inteligente e protecção de comunidades vulneráveis contra cheias. Sem isso, os ganhos podem ser engolidos por desastres recorrentes.
  • Pergunta 4: Como é que isto se liga às alterações climáticas globais?
  • Resposta 4: O aquecimento dos oceanos e a mudança da circulação atmosférica estão a alterar os sistemas de monção africanos. Isso significa que algumas áreas ficam mais secas, enquanto outras - incluindo partes do Saara e do Sahel - registam chuvas mais frequentes ou mais intensas. A “remodelação” do Saara é uma face da mesma perturbação global que está a alimentar ondas de calor, tempestades e a subida do nível do mar noutras regiões.
  • Pergunta 5: O que pode ser feito já para reduzir os riscos de chuva excessiva em regiões desérticas?
  • Resposta 5: As prioridades incluem reforçar sistemas de aviso precoce, travar a construção em zonas de inundação de alto risco, melhorar a drenagem em cidades em rápida expansão, restaurar amortecedores naturais como zonas húmidas e dunas, e apoiar meios de subsistência flexíveis que possam deslocar-se com as zonas climáticas em mudança. Nada disto é perfeito, mas cada passo compra tempo num mundo em que o céu muda mais depressa do que os nossos hábitos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário