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Pessoas mentalmente sobrecarregadas muitas vezes têm emoções não processadas.

Pessoa lendo um livro, com chá ao lado, numa mesa de madeira.

A notificação chega antes de a chaleira ferver. Um ping do Slack por cima de uma mensagem no WhatsApp por cima de três e-mails por ler. A televisão faz ruído de fundo, alguém no TikTok está aos berros através do teu telemóvel, e o teu cérebro, de repente, parece o metro de Lisboa em hora de ponta. Não estás em perigo, não está a acontecer nada catastrófico. E, no entanto, o peito aperta, a mandíbula contrai, a atenção dispersa-se como pássaros.

Deslizas no ecrã, meio a ler, meio a fugir. Respondes a uma mensagem de que não queres saber e ignoras a que realmente importa. O corpo está em alerta, mas os pensamentos estão turvos. Dizes a ti mesmo que estás “só cansado” ou “um bocado stressado”. No fundo, há outra coisa a bater à porta.

Sentes-te sobrestimulado, mas a verdadeira história é mais silenciosa.

Quando o teu cérebro parece demasiado barulhento, as tuas emoções podem estar demasiado caladas

Passa um dia em qualquer open space e vais ouvir as mesmas frases a cair em cascata: “O meu cérebro fritou.” “Não consigo pensar.” “Estou tão sobrestimulado.” As pessoas esfregam as têmporas, fazem piadas sobre burnout, actualizam a caixa de entrada como se fosse uma máquina de casino. As luzes são fortes, a conversa não pára, e há sempre mais um separador para abrir.

À superfície, parece uma história simples: demasiados ecrãs e pouco descanso. Mas olha um pouco mais de perto e notas algo mais estranho. Algumas pessoas ficam exaustas com quase nada. Uma chamada curta, uma pequena decisão, uma mudança inesperada - e sentem que correram uma maratona mental.

Pensa na Clara, 34 anos, gestora de projectos, aquele tipo de pessoa que os colegas descrevem como “segura” e “de confiança”. O dia dela é um desfile de pequenas exigências. Um colega a desabafar de manhã. Um e-mail tenso de um cliente. Uma mensagem da mãe a perguntar quando é que ela vai lá a casa. Às 15h, o coração dispara por causa de uma simples alteração na agenda. Ela brinca a dizer que o “cérebro está avariado”, e depois fica até mais tarde para recuperar trabalho, com os auriculares postos e a mandíbula cerrada.

No papel, não se passa nada de dramático. Não há gritos, não há crise, não há um grande trauma a repetir-se em voz alta. E, no entanto, por dentro, o sistema dela está inundado. Mais tarde, em casa, explode com o companheiro por ele ter deixado uma chávena no lava-loiça. A discussão não faz sentido quando comparada com o tamanho da raiva. Vai para a cama a fazer scroll, convencida de que simplesmente “não aguenta o stress como as outras pessoas”.

O que está a acontecer é menos dramático e mais subtil. Quando guardamos anos de tristeza engolida, raiva que nunca dissemos em voz alta, pequenas humilhações diárias que varremos para debaixo do tapete, o nosso sistema nervoso carrega isso como correio por enviar. Emoções não processadas não desaparecem. Mudam de forma. Tornam-se tensão no estômago quando alguém nos critica. Tornam-se um coração aos pulos quando aparece uma notificação. Tornam-se aquela sensação estranha de zumbido quando muitas pessoas falam ao mesmo tempo.

O cérebro lê cada novo estímulo através de um filtro antigo: “Isto é seguro? Isto parece-se com aquela vez em que me magoei e fingi que estava tudo bem?” Por isso, um simples ping do Slack não chega sozinho. Acorda todas as desilusões antigas que nunca te permitiste sentir a sério. Não admira que te sintas sobrestimulado. Não estás a lidar apenas com o dia de hoje.

Como ouvir os sinais que o teu sistema nervoso continua a enviar

Um método concreto que muitos terapeutas sugerem hoje parece quase demasiado simples: check-ins emocionais em tempo real. Não é uma sessão grande de diário, nem um monólogo completo de terapia. É só parar 30 segundos e perguntar: “O que é que estou realmente a sentir agora?” E depois dar-lhe um nome, em silêncio, sem julgamento. Stressado, pequeno, ignorado, triste, envergonhado, sozinho, ressentido.

Podes fazê-lo quando o telemóvel acende e sentes aquele micro-choque no peito. Ou quando alguém desmarca planos e de repente apetece-te deitar a tua noite fora. Primeiro, identifica a sensação no corpo - garganta apertada, estômago pesado - e depois a emoção. Este pequeno acto de nomear transforma uma tempestade vaga em algo que a tua mente consegue segurar sem se afogar.

O erro comum é esperar por um sentimento “grande” antes de prestar atenção. Ignoramos o tremor no olho, a respiração curta, a forma como começamos a falar mais depressa nas reuniões. Dizemos a nós próprios que é só café, ou “uma fase mais puxada”, ou a nossa personalidade. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Normalmente reparamos quando já estamos à beira - quando o colapso ou o bloqueio estão a segundos de distância.

É aí que entra a auto-culpa. “Porque é que eu sou assim? Porque é que não consigo lidar com a vida normal?” Não és fraco. Estás acumulado. O teu sistema está a carregar anos de “não” que não disseste, lágrimas que não choraste quando “aguentaste firme”, e frustração engolida de cada vez que decidiste “não vale a pena fazer cena”.

Às vezes, o que parece sensibilidade ao barulho ou aos ecrãs é, na verdade, sensibilidade aos nossos próprios sentimentos - finalmente a bater à porta.

  • Começa pequeno: escolhe um momento diário - depois de uma reunião, antes de abrir as redes sociais, quando entras em casa - para parar e perguntar: “O que sinto agora?”
  • Usa palavras simples: esquece linguagem poética. Vai para rótulos básicos: triste, zangado, com medo, envergonhado, culpado, cansado, vazio.
  • Escolhe uma forma de descarregar: uma nota de voz para ti, uma nota curta no telemóvel, ou três linhas num caderno. A consistência importa mais do que a profundidade.
  • Respeita o teu limite: se te sentires inundado, pára. Levanta-te, bebe água, olha à tua volta, nomeia cinco coisas que vês. Primeiro aterra, depois processa.
  • Repara nos padrões: ao fim de uma semana, revê. Quando é que te sentes mais sobrestimulado? Com quem estavas? Que tema apareceu? Os padrões revelam feridas antigas.

Quando a sobrestimulação é uma mensagem, não uma avaria

As pessoas que se sentem mentalmente sobrestimuladas o tempo todo muitas vezes acham que estão “estragadas”. Demasiado sensíveis. Não feitas para este século. Essa história é confortável e cruel ao mesmo tempo. Desculpa-nos de tentar, mas diz-nos em silêncio que há algo errado na nossa própria cablagem. A realidade costuma ser mais suave do que isso. Muitas vezes, a cablagem funciona. O que está a arder é o acumulado emocional.

E se a sobrestimulação mental não fosse o inimigo, mas um sinal de alerta? O corpo a dizer: “Já não consigo carregar isto sozinho.” Aquele cérebro a zumbir depois de um simples convívio. A fadiga esmagadora depois de ver as notícias. A tarefa pequena que te dá vontade de chorar. Cada uma pode ter menos a ver com o evento e mais a ver com um sentimento antigo que ele toca.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um comentário que parece inofensivo para os outros te acerta como um murro porque ecoa uma frase que ouviste em criança. Olhas à volta e toda a gente parece bem, a fazer scroll, a conversar, a trocar de tarefa como acrobatas. Tu sentes-te como se fosses feito de vidro fino. A tentação é endurecer, desligar, acrescentar mais ruído para abafar o sinal.

Há outra opção. Tratar a sobrestimulação como dados. Perguntar, com cuidado: “O que é que eu não tive espaço para sentir naquela altura, que o meu corpo ainda está a segurar agora?” É um trabalho lento, pouco glamoroso. Às vezes acontece em terapia, às vezes numa conversa nocturna com um amigo, às vezes numa caminhada a sós quando uma memória reaparece e finalmente deixas as lágrimas vir sem as justificares.

Não há solução rápida, nem aplicação mágica de hábitos. Só uma postura diferente perante a tua vida interior. O teu cérebro não é uma máquina avariada. É uma sala cheia de emoções à espera de serem reconhecidas. E cada vez que ouves uma delas, o volume do mundo cá fora baixa só um bocadinho.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A sobrestimulação esconde emoções antigas O ruído diário muitas vezes acorda raiva, tristeza e medo não processados de experiências passadas Ajuda-te a deixar de te veres como “sensível demais” e a começar a ver padrões
Dar nome ao que sentes reduz o avassalamento Check-ins emocionais curtos e regulares criam espaço entre estímulo e reacção Dá-te uma ferramenta prática para acalmar o teu sistema sem te desligares da vida
Sinais em vez de auto-culpa Tratar a sobrecarga mental como informação, e não como falha, abre a porta à cura Incentiva a auto-compaixão e formas mais sustentáveis de viver e trabalhar

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se estou sobrestimulado ou só cansado?
  • Pergunta 2 As emoções não processadas podem mesmo afectar a minha concentração no trabalho?
  • Pergunta 3 E se eu começar a sentir “demais” quando abrir essa “gaveta emocional”?
  • Pergunta 4 A terapia é a única forma de processar emoções antigas?
  • Pergunta 5 Quanto tempo demora a sentir-me menos sobrestimulado depois de começar a trabalhar nisto?

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